Ao Sérgio que não quer ler Maturana, mas quer entender…



Books for Kids: Spike Lee demonstrates "Please, Puppy, Please!"

Upload feito originalmente por Ryan Brenizer

Com relação ao surgimento do ser humano, Maturana o associa à manutenção de um modo de vida centrado:
- no ato de recolher e compartilhar alimentos
- na colaboração entre machos e fêmeas no cuidado da prole
- na convivência sensual (expansão sensorial)
- na sexualidade das fêmeas vinculadas ao seu próprio interesse e disposição e não a períodos espaçados de cios
- tudo isso no âmbito de um pequeno grupo de indivíduos.

Sérgio, esse amor que surge na validação do outro como legítimo outro tem a ver com uma relação fundante de nossa espécie, o cuidado. Somos seres cuidadores, e todos fomos cuidados. O inseto que bota o ovo e vai embora gera uma linhagem de seres não sociais. O inseto que bota o ovo e fica para cuidar do ovo, protegê-lo, lambê-lo, manipulá-lo, deste teremos uma linhagem social. Grosso modo, claro. O inseto cuida do ovo na realização de si mesmo enquanto ser vivo. A mãe cuida do fiolho enquanto alguém tão válido como ela mesma. Diferente do tubarão, que não tem filhote, gera outro tubarão, só que pequeno.
Os humanos nascem na predestinação biológica de serem cuidados. Nosso sistema nervoso, nossas dinâmicas emocionais surgem neste contexto. Estamos preparados apenas para sermos aceitos como válidos, percebe? Tem sido assim a milhares de anos.
Somente a poucos milhares de anos, quando nossas linhagens derivaram para um padrão civilizatório que conserva a exigência, o patriarcado, como dinâmica recorrente, é que nossos filhotes passaram a experimentar algo que é um não-amor. Tão desconfortável é esta situação para a nossa corporalidade que desenvolvemos critérios de validação para operarmos distinções entre o que é uma experiência no amar e o que não é! Estes critérios são individuais e subjetivos, não temos acesso a eles no outro, e geralmente nem os percebemos em nós mesmos. Essa dinâmica é explicada por Ximena Dávila como uma traição cultural, origem de todo sofrimento humano.

Estes argumentos sobre amor e repulsa que você traz pertencem a um outro domínio de conhecimento, numa outra instância do viver humano. Somos seres constitutivamente amorosos, isto é o que diz Maturana ao explicar nosso desenvolvimento cognitivo enquanto seres humanos. Se não fosse a aceitação do outro enquanto um outro válido, não seríamos o que somos hoje, apenas isso.

Respeito sua decisão de não leu o Maturana porque entendo que conhecimento é uma operação de conversação que surge no diálogo de um observador com outro que pode ser ele ou ela mesma. Maturana conserva uma conversação em suas perambulagens pelo mundo. Sugiro que você se inscreva numa delas. Busque através da Escuela de Santiago o calendário de encontros no Chile e até mesmo no Brasil onde, através da UNINDUS temos uma Certificação em Biologia Cultural que dura três anos, com três semanas presenciais de imersão com Maturana por ano. Aproveite, ele tem 81 anos, ok?

Agora, se não quiser isto também, bom, então posso fazer ou indicar alguém para fazer um coaching de Biologia Cultural prá você e equipe. Se não quiser isto também, então não se surpreenda se a gente te deixar falando sózinho às vêzes, certo? Brincadeirinha. Hehehehe…

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O que é Ensinar? O que é um Professor – Maturana [*]



Foire du Trone, upload feito originalmente por whisperfoto.

[*] Transcrito do trecho final da aula de encerramento de Humberto Maturana no curso de Biologia Del Conocer, Facultad de Ciencias, Universidad de Chile, Santiago, em 27/07/90.
Gravado por Cristina Magro; transcrito por Nelson Vaz.

Humberto Maturana dizendo…

- Alguma outra pergunta?

- Sim, Professor. Que é um professor? Ou, quem é um professor?

- Humm (pausa)

(Risos)

(Escreve ao quadro negro:)

- Professor, Mestre. E, portanto, está aqui: ensinar. Creio que aqui aparece este conceito.
O que é ensinar? Eu lhes ensinei a Biologia do Conhecer? Sim, se alguém abre a porta desta sala… (desloca-se até a porta, simula ouvir alguém que bate à porta e, então, se desculpa, e diz a outro alguém: ) … “Nesta sala está o Professor Humberto Maturana ensinando Biologia do Conhecer” (desloca-se de volta:)
Eu lhes ensinei a Biologia do Conhecer? Em um sentido, com relação à responsabilidade perante a Faculdade, eu lhes ensinei a Biologia do Conhecer.

(Risos)

- Mas o que fizemos nós ao longo deste semestre?

- Desencadear mudanças estruturais.

- Desencadear mudanças estruturais, desencadear perturbações. E como fizemos isso?

- Em coordenações de coordenações de ações.

- Em coordenações de coordenações de ações. Ou, seja: vivendo juntos. Claro, uma vez por semana, viver juntos uma hora, uma hora e meia, duas horas, ou, alguns estudantes, que permaneceram comigo mais horas… isso era viver juntos. Vocês podem dizer: “Sim, mas eu estava sentado escutando”. Isso se estavam verdadeiramente escutando, como espero.

(Risos)

- Estavam sendo tocados, alegrados, entristecidos, enraivecidos… Quer dizer, se passaram todas as coisas do viver cotidiano. Mexeram com as idéias, rejeitaram algumas.
Saíram daqui conversando isto e mais aquilo… “Estou fazendo um trabalho…” Estavam imersos na pergunta: “Como prosseguir de acordo com o que lhes ia passando, vivendo juntos, comigo, em um espaço que se ia criando comigo.”
Então, qual foi a minha tarefa? Criar um espaço de convivência. Isto é ensinar. Bem, eu ensinei a vocês. E vocês, ensinaram a mim?

- Sim.

- Claro que sim! Ensinamo-nos mutuamente. “Ah, mas acontece que eu tinha a responsabilidade do curso, e ia guiando o que acontecia”. De certa forma, sim, de certa forma, não. De certa forma, sim, porque há certas coisas que eu entendo da responsabilidade e do espaço no qual me movo nesta convivência, e tinha uma certa orientação, um fio condutor, um certo propósito. Mas vocês, com suas perguntas, foram empurrando esta coisa para lá, e para cá, e foram criando algo que foi se configurando como nosso espaço de convivência.

E o maravilhoso de tudo isso é que vocês aceitaram que eu me aplicasse em criar um espaço de convivência com vocês. Vocês se dão conta do significado disso? Foi exatamente igual ao que ocorreu quando vocês chegaram, como crianças, ao jardim de infância, e estavam tristes, emburrados, a Mamãe se foi, estão chorando, “Ahhh, eu quero minha mãe”, e chega a professora, e oferece a mão e vocês a recusam, mas ela insiste, e, então, vocês pegam sua mão. E o que se passa quando a criança pega na mão da professora? Aceita um espaço de convivência.

Com vocês se passou a mesma coisa. Em algum momento, aceitaram minha mão. E, no momento em que aceitaram minha mão, passamos a ser co-ensinantes. Passamos a participar juntos neste espaço de convivência. E nos transformamos, em congruência…
De maneiras diferentes, porque, claro, temos vidas diferentes, temos diferentes espaços de perguntas, temos experiências distintas. Mas nos transformamos juntos, e agora podemos ter conversas que antes não podíamos.

E quem é o professor? Alguém que se aceita como guia na criação deste espaço de convivência. No momento em que eu digo a vocês: “Perguntem”, e aceito que vocês me guiem com suas perguntas, eu estou aceitando vocês como professores, no sentido de que vocês me estão mostrando espaços de reflexão onde eu devo ir.
Assim, o professor, ou professora, é uma pessoa que deseja esta responsabilidade de criar um espaço de convivência, este domínio de aceitação recíproca que se configura no momento em que surge o professor em relação com seus alunos, e se produz uma dinâmica na qual vão mudando juntos.

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Que tempo temos além do instante presente?



time spiral, upload feito originalmente por strange_wax.

A noção de tempo surge como uma explicação constante e recorrente para um paradoxo que experimentamos ao nos percebermos em um presente contínuo que se transforma a cada pulso sincrônico de nossas sinapses cerebrais.

Observamos este momento estático, único tempo em que vivemos, pois não há passado em nossa experiência, apenas na lembrança que conservamos como a explicação da experiência.

E nada muda pois este momento presente é absolutamente sempre o mesmo, sem futuro pois este é apenas uma projeção presumida de acontecimentos que supomos a partir dos vetores de explicação que conservamos para nossas vidas.

Este presente momento estático do instante contínuo que permanece e muda sem se alterar enquanto se transforma, se conservando nesta transformação e se transformando nesta conservação, a isto chamo tempo, e nada mais!

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¿Cómo estamos haciendo lo que estamos haciendo en este momento presente, que estamos viviendo como estamos viviendo?



Botanical Garden (Stereographic), upload feito originalmente por Martin_Heigan.

Vivemos na coerência de cada momento existindo como seres humanos vivos desde a muito tempo nesta biosfera. A cada instante vivido mantemos nossa congruência com o que nos cerca. Nossa estrutura individual determina nossas possibilidades de interação com o que está ao nosso redor, e vivemos nosso viver humano interagindo com o meio e as pessoas onde convivemos.

Mergulhados na linguagem, explicando o mundo a partir de nossas observações e refletindo sobre nós mesmos conservamos nosso viver a cada instante. Nossas células criam-se a si mesmas, e aí está o mecanismo fundamental de nossas vidas, e nós conservamos nosso meio conservando nossas vidas no viver neste meio.

Em nossa história temos vivido um caminho determinado a cada instante pelos desejos, vontades, escolhas e emoções de cada um de nós, dentro das possibilidades estabelecidadas pelo meio que nos cerca, que são tantas quantas as ondas, ventos e correntes presentes em um oceano de derivas onde mantemos a realização e conservação do bem-estar em nosso viver.

Ajustamos nossa estrutura adaptando as partes de nosso corpo, psiquismo e razão a todo momento, mantendo assim uma congruência com o meio que nos permite viver e seguir vivendo. Nos coordenamos uns com os outros da maneira possível que nossa estrutura e o meio permitem, através da linguagem humana que é na verdade um linguajear onde palavras, gestos e emoções se combinam pela expressão do que somos a cada instante.

Como seres amorosos fazemos o que fazemos a partir do cuidado que temos uns com os outros, a começar por nossos filhotes que sem amparo e proteção não podem se manter vivos sozinhos. Nesta amorosidade biológica, neste cuidar que está registrado em nossa espécie como uma condição biológica/cultural nascemos, nesta confiança do amar, e sem isto não poderia haver o habitar humano na terra.

Então o amar como fundamento de nossa espécie ocorre nas condutas relacionais onde alguém, um ou qualquer outro surgem como legítimos na convivência uns com os outros. Nascemos amorosos e, se não buscamos argumentos racionais ou motivos emocionais para viver o contrário disto, construimos um mundo de amorosidade ao nosso redor.

Quando em nossa cultura negamos esta condição amorosa fundamental, invalidando a existência de quem vive através de argumentos como a intolerância racial, social ou religiosa, por exemplo, estabelecemos uma traição cultural à própria condição da vida humana.

Com isso, na epigênese de cada indivíduo, alguns se mantém nesta amorosidade e surgem como legítimos em sua própria existência, outros se afundam na própria dor de serem negados como legítimos em seu viver e seguem mantendo uma auto-depreciação que os impede de legitimar a si mesmos e aos outros ao seu redor.

De modo que muitos de nós vivem mergulhados em traições culturais de negação da legitimidade de si mesmos e da vida ao seu redor, incluindo a própria natureza em nosso planeta que passa a ser negada enquanto meio da vida e passa a ser explorada como meio de vida.

Com a multiplicação do número de pessoas em nosso planeta, esta exploração dos recursos naturais tem se ampliado em proporções que começam a ameaçar a própria existência humana neste mundo. Hoje temos culturas inteiras que, marcadas por um conjunto de atitudes patriarcais-matriarcais, gera indivíduos que vivem na traição cultural de si mesmos como padrão em seu viver. Estas multidões, na dor de seu viver, devoram tudo ao seu redor como forma de mitigar momentaneamente este sofrimento.

A escala deste processo neste momento nos leva a um ponto decisivo na história de nossa civilização. Ou refletimos sobre o que estamos fazendo, num ato de amorosidade a nós mesmos, ou nos condenamos a um desaparecimento trágico onde o esgotamento dos recursos naturais, o desequilíbrio climático e os choques sociais decorrentes deste cenário porão fim à vida humana na terra na forma como hoje a conhecemos.

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¿En qué mundo queremos que vivan las generaciones que vendrán?



Dragon Kite, upload feito originalmente por Danarah.

O fundamento humano do amar, que traz o outro como um legítimo outro em seu viver, só é possível a partir da constatação de que todas as realidades percebidas por cada indivíduo são válidas. Cada um de nós é o centro de um cosmos em si mesmo, que se realiza em um eterno presente mutante contínuo no fluxo de nosso viver.

Entretanto nossas certezas acerca da existência de uma só realidade compartilhada onde todos vivemos, nos coloca sempre em um espaço de onipotência. Sabemos o que sabemos a partir do mundo que percebemos, mas todas nossas percepções dependem de uma próxima experiência para se confirmar como ilusão ou percepção.

Então vivendo nesta incerteza de que o que percebemos é ou não, mas ao mesmo tempo tentando capturar um padrão de recorrências de nossas experiências para caracterizar o que chamamos de realidade, seguimos impondo nossas certezas através de argumentos racionais e emocionais que visam, em última análise, subjugar nossos semelhantes, na exigência de nossa sabedoria acerca do que é real.

Quando ouvimos algo que alguém nos diz, validamos o que nos é dito a partir do que entendemos ser a realidade. Não escutamos a legitimidade do que nos é dito a partir de quem nos diz, mas somente a partir de nós mesmos, tornando o outro alguém invisível.

O abandono do apego ao valor que cada um dá a suas próprias opiniões como únicas, válidas e verdadeiras, sejam elas fundamentadas em seja qualquer sistema de crenças ou ciências que os sustentem, pode trazer um mundo mais humano, amoroso e ético.

Este mundo onde as gerações futuras viveriam seria um mundo onde a invisibilidade do ser humano não ocorreria, ou pelo menos não seria aceita como um padrão cultural natural da espécie humana, tal qual percebo hoje.

Um mundo onde cada um de nós não teria que justificar sua própria existência. Onde poderíamos conviver sem exigências, sem prejuízos, sem opiniões e sem expectativas que distorcem a convivência gerando cegueiras que negam a oportunidade de sermos vistos em nossa legitimidade.

Um mundo onde a ampliação de nossa visão, de modo que pudéssemos distinguir a matriz de relações que constitui nossa existência na biosfera, garantisse o bem-estar na convivência da ação e reflexão éticas, livres e criativas.

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¿Qué estoy o estamos haciendo hoy para generar ese mundo en que deseamos que vivan las generaciones que vendrán?



Immigration (Ben Heine ©), upload feito originalmente por Ben Heine.

O futuro do planeta não está nas crianças, mas nos adultos que estas crianças serão. E serão adultos conforme crescerem acoplados nas condutas relacionais que nós adultos adotamos como válidas em nosso viver cultural. Então o que estamos fazendo hoje já está definindo o mundo onde nossos descendentes irão viver.

Em uma rede fechada de conversações que inclui nossos filhos, e os filhos de nossos filhos, conservamos que somos Brasileiros, por exemplo, até isto se estabilizar como uma epigênese a partir da qual todos que aqui nascerem tenham a conservação de seu viver sendo também brasileiros.

Determinamos então estas relações e somos determinados por elas em um devir que se conserva pelos sentires relacionais através de gerações, dando forma a nosso modo atual de viver.

Muitos de nós cresceram com a noção de que o sofrimento faz parte da vida. A milhares de anos vivemos em sociedades patriarcais-matriarcais onde os indivíduos são negados em sua existência legítima na medida que, para seguir vivendo, devem se adaptar às exigências e expectativas de um desamar generalizado.

Vivemos assim modo desde nossa infância, no esforço de não saber viver de outro modo e, se algo não nos ocorre, seguimos sem possibilidade de refletir sobre isto, mantendo-nos recursivamente neste operar de sofrimento.

Para nos mantermos congruentes com o meio, preservando nosso bem-estar no momento presente de acordo com o que ocorre ao nosso redor, entramos em congruência com uma rede fechada de conversações que conserva a insegurança, a desconfiança e, como consequência, a dominação e o controle, sustentando com argumentos racionais e emocionais que isto é absolutamente parte do viver humano. A explicação de que a vida é dolorosa em si mesma é a máxima do submetimento humano a uma cultura patriarcal-matriarcal que desse modo se conserva geração após geração.

Do mesmo modo que nos enredamos neste sofrimento através de nossas conversações em rede, desde nossa infância até o momento presente em que vivemos, podemos nos afastar da conservação deste sofrimento através das conversações reflexivas que nos coloquem a observar como fazemos o que fazemos, por exemplo.

Este suceder conversacional pode ocorrer na medida que nos dispomos a dispensar algum tempo de nossas vidas para ouvir com atenção ao outro, buscando a legitimidade do que nos é dito a partir de quem nos diz o que diz de onde diz. Estas conversações só podem ocorrer em ambientes livres de exigências, espaços isentos de espectativas, onde apenas a conservação do amar como fundamento do viver humano possa orientar os diálogos, apreciativamente.

Nestes espaços as diversas dimensões psíquicas que geralmente ficam ocultas, podem surgir através do linguajear humano livre, em reflexões que nos convidam a abrir mão de nossas certezas na percepção do que nos diz o outro, um ser humano validado pelo seu viver a partir do que vive.

O que estamos fazendo é justamente oportunizar espaços de conversação como o Global Forum America Latina, por exemplo, onde indivíduos com histórias pessoais, profissões, crenças e sistemas muito diversos possam se encontrar em uma rede de conversação reflexiva acerca dos destino de nossa espécie em nosso planeta Terra.

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Quando olhei novamente minha certeza não estava lá!

Cavalos em Montmartre, upload feito originalmente por Ascauri.

Nesta vida de todo dia
em que me encontro a cada momento
num giro louco de controle ou deriva
noto num ponto em que passo
um rosto que já vi
com uma expressão de dor conhecida
e assim sigo girando
vendo de novo e mais uma vez
até perceber um ciclo
do padrão de certo ritmo,
onde distinguo uma repetição.

Então na próxima volta
por um momento
vejo às vêzes o carrosel em que giro
e os cavalos coloridos que se movimentam
prá baixo e prá cima
sem nunca sair do lugar
mas sempre girando e girando
num caminhar estático
onde tudo de move
mas tu não te moves de ti!

E te vejo vendo eu mesmo neste carrosel
como criança que não cresceu
e que ainda se diverte e tem medo.

Mas seu eu estou lá, girando,
quem sou eu que estou vendo tudo isto?
E de quem é aquele rosto
com uma expressão de dor conhecida?
Será o rosto de alguém
ou é apenas o meu?

Nas perguntas que surgem me solto
em dúvidas de perguntar,
enquanto sentado em meu cavalo,
mais uma vez começava a rodar.
E de novo vejo o rosto,
de novo vejo a dor,
mas me vejo vendo a dor
em um ver de mim que ainda nunca havia visto
e quando olho novamente
uma certeza minha não está mais lá!

E um novo mundo cheio de possibilidades já está,
instaurado em um fundamento que podemos chamar,
vida!

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Tradições e transgressões

O macaco que é macaco não sabe que é macaco. O cachorro que é cachorro não sabe que é cachorro. A cobra que é cobra não sabe que é cobra. O homem que é homem sabe que é homem. O homem que não sabe que é homem pode ser qualquer coisa, inclusive um macaco, um cachorro ou uma cobra!

Assim começa a peça “A Alma Imoral” que assisti no Teatro Eva Hertz em atuação impecável (mas existe o pecado?) de Clarice Niskier a partir do livro homônimo de Nilton Bonder.

Bonder é um rabino progressista, líder da Congregação Judaica do Brasil com formação internacional e uma coleção de sucessos editoriais como “O Segredo judaico da solução de problemas”. A Alma Imoral é seu décimo primeiro livro e traz uma visão clara sobre a importância da transgressão como elemento de manutenção da vida com fartos exemplos da tradição judaica, da bíblia e de histórias e parábolas universais. Bonder identifica na alma, e não no corpo, essa qualidade transgressora que desafia os limites culturais, sociais e religiosos em momentos onde a manutenção da vida se faz imprescindível. Bonder escreve e Clarice nos fala sobre a importância da conservação da vida acima da conservação das regras e é justamente aí que eles se encontram, em minhas reflexões, com o que Humberto Maturana nos ensina. Leia o resto deste post »

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Futebol, política, religião e a realidade, não se discute

Don’t you be yelling at me. - Foto por Mareen Fischinger

Estes dias lendo Humberto Maturana em sua Ontologia da Realidade [p.298] tive uma compreensão sobre esta afirmação. Geralmente o espaço de discussão sobre temas como estes é evitado prudentemente por pessoas que convivem em uma determinada dimensão grupal. Colegas de trabalho, amigos em um bar, companheiros de viagem, marido e mulher evitam conversar sobre política, religião e futebol porque sabem que inevitavelmente a conversa vai gerar desconforto em poucos minutos.

Isto porque normalmente discutimos acreditando que falamos de uma mesma verdade objetiva e racionalmente inegável. Nossa educação e cultura nos formaram na crença de que a realidade existe independente de nós. Só a pouco tempo é sabido que a realidade não é nada mais do que a percepção das coisas a partir de cada um de nós. Cada um conhece o que vê a partir da vida que viveu em seu sistema de crenças pessoais e íntimo. Não existe uma realidade única, compartilhada por todos.

Nem mesmo aquilo que nossa ciência comprova é a realidade única. A ciência apenas explica o mundo de um modo coerente com ela mesma. A matemática prova na matemática que dois mais dois são quatro. Mas quatro laranjas são quatro laranjas apenas quando existe alguém para perceber isto. Nada é em si mesmo. Tudo surge a partir de alguém que observa. Leia o resto deste post »

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Tag cloud Instituto MatriZtico

Esta nuvem de palavras foi formada a partir da transcrição de dois dias de palestras do Instituto MatriZtico, com Humberto Maturana e Ximena Dávila. As palavras maiores são encontradas com mais frequência nos textos, repetindo-se diversas vêzes. As menores aparecem vez ou outra. A posição das palavras na nuvem é absolutamente aleatória, não indica nada.

Estas nuvem de palavras tem sido muito utilizadas na organização de conteúdos produzidos por multidões como centenas de blogs, as mensagens de uma rede social ou as listas de links favoritos de um grande número de pessoas. Tag clouds (nuvem de rótulos) também pode ser produzidas a partir de um texto, um livro por exemplo.

Esta imagem foi produzida a partir do site wordle.net que permite que você indique um endereço de internet ou texto para composição de uma nuvem exclusiva. É bem legal, mas o Java de seu navegador tem que estar atualizado, ok

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